Estudos reforçam a relação entre o consumo de álcool e casos de câncer

Mesmo em pequenas quantidades e independentemente do tipo de bebida, o consumo de álcool está relacionado ao aumento progressivo de incidência de câncer.

Por Redação 28/12/2019 - 10:06 hs

Estudo publicado na edição de dezembro da revista científica Cancer, liderado pelo doutor M. Zaitsu, das universidades de Tóquio, no Japão, e Harvard, nos Estados Unidos, avaliou 63.232 voluntários e observou que, eliminando outras variáveis de risco como tabagismo, sedentarismo e obesidade, o consumo, mesmo moderado, de bebidas alcoólicas aumentou claramente o risco de desenvolver câncer.

Para quem consome somente uma taça de vinho ou uma dose de destilado por dia, durante muitos anos, o risco aumentou em 5%. Por outro lado, beber duas doses por dia elevou em mais de 54% a possibilidade de desenvolver câncer. Na mesma semana, um editorial extenso na prestigiosa revista Jama, publicado pelo doutor W. Klein, do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, trouxe as esmagadoras evidências, correlacionando o consumo de álcool e a elevada ocorrência de novos casos de câncer.

Klein alerta e recomenda a todos os médicos abordarem seus pacientes quanto a esses riscos, e às autoridades de saúde criarem ações para controlar o consumo.

A reportagem conversou com o doutor Carlos Henrique Teixeira, oncologista e pesquisador no Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, para analisar tais resultados. Confira:

Os dados relacionando o consumo de álcool ao câncer não são tão novos.

Carlos Henrique Teixeira: De fato, não são recentes. A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como carcinógeno há mais de 30 anos. Mas as estratégias de prevenção e uma maior conscientização enquanto fator de risco para esta doença ainda estão longe do ideal.

Qual o impacto do consumo de álcool na incidência de câncer atualmente?

Estima-se que 5,5% de todos os cânceres tratados são relacionados ao álcool, sendo os mais frequentemente associados aos tumores de laringe, esôfago, orofaringe, fígado, intestino e câncer de mama.

Mesmo considerando o consumo chamado moderado?

Sim. Parece não existir níveis seguros de ingestão de álcool, tampouco bebida mais ou menos segura, pois todas incluem o etanol, que, quando metabolizado no corpo, produz o acetaldeído, que promove o dano ao DNA celular. Também é conhecido o papel do álcool nos níveis de estrógeno e andrógenos circulantes, o que pode aumentar o risco de câncer de mama. O álcool igualmente altera os níveis de folato no sangue, que também pode contribuir para desencadear câncer de intestino. Recentes pesquisas mostram que mesmo um consumo considerado moderado (1-2 drinques por dia, equivalente a 14-28 gr de álcool/dia) parece elevar o risco do câncer de mama em mulheres.

Por que a sensação de que a relação entre álcool e câncer não é cientificamente bem estabelecida?

É uma falsa impressão. Grandes estudos experimentais e ecológicos, que correlacionam incidência e mortalidade com o consumo de álcool, e os que comparam pacientes com câncer com controles sadios em busca de fatores de risco não deixam dúvidas do papel desencadeador de câncer relacionado ao álcool.

O que falta para os profissionais da saúde aplicarem essas recomendações?

A classe médica, na grande maioria, não está preparada ou não se sente impelida a desempenhar um papel tão reconhecido pelos pacientes: o de educação e de orientação. Muitas vezes, os próprios médicos podem ser considerados alcoólatras. Pesquisas revelaram que quase 20% dos médicos holandeses e 14% dos doutores americanos atingem um nível elevado de consumo de álcool e que terão alguma desordem relacionada a essa demanda durante suas vidas. Ou seja, é necessário iniciar uma cultura antialcoólica na própria classe médica, além de abordar a preocupante incidência de burnout nesse meio.