Brucelose e tuberculose em bovinos: zoonoses demandam atenção do produtor

Médico veterinário associado da Unitec explica sobre as doenças e testes para detectá-las

Por Redação 27/01/2020 - 13:28 hs
Foto: Divulgação

Os produtores rurais já estão acostumados a ouvirem sobre brucelose e tuberculose bovina. Afinal, são duas doenças que acometem o rebanho bovino e demandam atenção por parte deles. Mas, além disso, estas zoonoses trazem riscos eminentes tanto para a saúde animal quanto para a economia da propriedade.

A brucelose é uma doença infectocontagiosa provocada por bactérias do gênero Brucella. Caracteriza-se por provocar, nas fêmeas, abortos geralmente no terço final da gestação, nascimento de bezerros fracos, retenção de placenta, repetição de cio e descargas uterinas com grande eliminação da bactéria. Nos animais machos, há inflamação nos testículos (orquite) e esterilidade.

Já a tuberculose bovina causa lesões em diversos órgãos e tecidos, como pulmões, fígado, baço e até nas carcaças. Podem ser encontradas também lesões no úbere das vacas.

O médico veterinário Hélio Franciscatto, associado da Unitec, explica que a incidência de brucelose, a nível de Estado, segundo dados da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é de 1% das propriedades. E a tuberculose está presente, em média, em 5% das propriedades gaúchas. “Na nossa região, a incidência de tuberculose é de 7,69%, o que já nos chama a atenção”, acrescenta.

Conforme dados do último ano, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a brucelose gera perdas da ordem de 20% a 25% na produção de leite e redução do tempo de vida produtiva dos animais, o que exige uma taxa de reposição de cerca de 30% e, consequentemente, gera custos para o produtor. Na tuberculose, a estimativa é de 10% a 18% na queda da produção e também há diminuição da taxa de fertilidade nas fêmeas afetadas. Além disso, ambas geram prejuízos provocados pela maior dificuldade de comercialização dos animais, em razão da perda de credibilidade da unidade de criação, e repercussão negativa nos mercados nacional e internacional.

Os testes

Pra evitar que as doenças se alastrem, existe a exigência de realização de testes para comprovar, ou não, a presença da zoonose no animal e na propriedades. O profissional esclarece que o teste da brucelose é realizado com coleta sangue e análise no laboratório do veterinário. Já o teste de tuberculose é realizado com a aplicação da substância tuberculina na pele do animal. “Primeiramente, se faz a medição da pele do bovino, e depois de três dias volta-se a fazer a medição daquele mesmo local. Se o animal foi portador da tuberculose, aparecerá uma reação local, semelhante a um inchume.”

Conforme o médico veterinário, existe uma tabela comparativa das medidas, pela qual avalia-se a diferença na medição sem e com a aplicação. “Se for inferior a 1,9 mm no aparelho, o teste é considerado negativo. De 2 a 3,9 mm é inconclusivo e é necessário repetir o teste. E, acima de 4mm, o resultado é positivo para a doença. Quando o animal tem a tuberculose, a reação é bem aparente.”

Testes negativos são exigidos para transporte de animais

Franciscatto conta que, desde 2016, a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural oficializou uma normatização que qualquer animal, que seja transferido de propriedade para comercialização ou doação, deve ter um teste negativo de brucelose e tuberculose. “O produtor precisa contatar um médico veterinário, habilitado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para realizar os testes. O teste é exigido pela Inspetoria de Defesa Agropecuária, que, após ter em mãos o resultado, emite a Guia de Trânsito Animal (GTA) e libera o transporte do animal.”

Propriedades livres das doenças são certificadas

O Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose, instituído pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em 2001, objetiva reduzir a prevalência e a incidência dessas doenças em bovinos e bubalinos, visando a erradicação.

Além de introduzir a vacinação obrigatória para brucelose nas bezerras bovinas e bubalinas em todo o território nacional, o programa definiu estratégias de certificação de propriedades livres ou monitoradas. A certificação agrega valor ao produto pecuário e atesta a sanidade do rebanho quanto a estas duas enfermidades.

Franciscatto destaca que, para o processo de certificação, o produtor precisa ser assistido por um médico veterinário habilitado pelo programa, que se responsabilizará pelo saneamento da propriedade. “Todo o rebanho é testado para as duas enfermidades e os animais que forem reagentes positivos são eliminados. Mas é preciso ressaltar que a certificação é voluntária, ou seja, fica a critério do produtor. O certificado tem duração de um ano.”

O profissional esclarece que o certificado é de utilidade aos laticínios, que bonificam o produtor que apresentá-lo. Mas e por que existe a bonificação? Segundo Franciscatto, quando existe maior oferta de leite, que pode vir a ser exportado, apresentar a cerificação facilita a comercialização à países que exigem leite ou derivado de propriedades livres de brucelose e tuberculose. 

Erradicação dos focos da doença

Franciscatto destaca que não existe, atualmente, vacina preventiva ou terapêutica à venda para o combate da tuberculose bovina. Mas para a brucelose existe a vacina, feita em animais fêmeas com idade entre três e oito meses.

A partir do momento que é diagnosticado, via testes, que a propriedade possui animais com brucelose ou tuberculose, é necessário eliminá-lo, caso contrário o local continua sendo foco. “Se elimina para evitar que esta doença se alastre. Para a erradicação do problema na propriedade, que é uma exigência do Mapa, tenho que apresentar o atestado que comprove que o animal é positivo para a zoonose. A partir daí ela entra em saneamento e é controlada pela Inspetoria de Defesa Agropecuária, que encaminha os animais portadores para o abate sanitário em frigorífico. E depois de 90 a 120 dias se repete os testes nos animais que ficaram na propriedade”, esclarece Franciscatto.

“Se na propriedade que está sendo assistida ocorrer foco das duas doenças, as pessoas que estão ali trabalhando com os animais precisam fazer testes no posto de saúde”, finaliza.